O álbum Anacrônico (2005) é o tipo de obra que toca em um lugar sensível dentro de quem ouve, aquele espaço onde vivem as dúvidas, os pensamentos e o leve incômodo de não se sentir totalmente parte do tempo em que se vive. É nesse território do emocional humano que o segundo disco da Pitty encontra morada, afastando-se da urgência ensolarada de sua estreia para mergulhar em algo muito mais denso e introspectivo.
Embora seja um disco de rock, com guitarras presentes e uma sonoridade nitidamente mais pesada, o trabalho vai muito além do gênero. A artista usa o conceito de estar “fora do tempo” como uma metáfora para algo que a maioria de nós já sentiu, a vontade de revisitar momentos, questionar as escolhas que mudaram nosso caminho e entender o peso do que ficou para trás. É um convite para refletir sobre quem nos tornamos e sobre o impacto que cada decisão tem sobre o nosso presente.
O enredo das canções se desenrola como um espelho da experiência humana, carregado de incertezas, algumas frustrações e a esperança de um recomeço que seja mais honesto com a própria essência. Pitty faz isso com uma entrega visceral, sem ser moralista, deixando que a música fale por si só e o ouvinte daquela sonoridade tire suas próprias conclusões.
A interpretação da cantora é um dos grandes destaques do projeto. Com sua intensidade característica, ela transita entre o grito de quem quer ser ouvido e o sussurro de quem está apenas conversando consigo mesma. Músicas como a faixa-título e “Memórias” não são apenas composições de sucesso, são registros de uma fase de amadurecimento onde a vulnerabilidade se tornou a ferramenta mais potente da artista.

A identidade visual do álbum também deve ser destacada como uma peça-chave para a narrativa. A capa, uma ilustração sensível de Thais Beltrame, foge do óbvio das fotografias comerciais para abraçar uma estética inspirada no expressionismo e no cinema clássico. Através de um traço que remete à gravura, a imagem capta a figura da artista em um visual que funde o antigo ao industrial, criando uma composição visual que evoca a nostalgia e o peso de ser uma alma humana tentando se situar em meio ao avanço do mundo. Esse jogo de tons terrosos e traços expressivos é estratégico para a atmosfera emocional do disco, retratando o indivíduo em meio ao contraste entre o passado e a modernidade.
Em 2020, em comemoração aos quinze anos do disco original, houve o lançamento da edição Deluxe, tornando a experiência ainda mais completa. Um verdadeiro presente para quem gosta de entender os bastidores da criação. Ao incluir faixas que ficaram de fora da versão original e versões demo, o relançamento permite uma escuta mais próxima e humana, revelando as camadas de experimentação que levaram ao resultado final. Canções que antes eram segredos de estúdio agora ajudam a contar a história de uma artista em busca de sua própria voz, oferecendo um novo olhar sobre a densidade daquele período e reforçando que o processo artístico é tão vivo quanto a obra terminada.
Outro destaque é a produção musical, que optou por uma estética menos polida e mais real. A sonoridade capta a passagem do tempo através de arranjos que ora são frios e distantes, ora são quentes e acolhedores, criando um jogo de sensações que é fundamental para a experiência do ouvinte. Do peso arrastado de “Déjà Vu” à força de faixas como “A Saideira” e “Na Sua Estante”, a trilha sonora do álbum se alinha perfeitamente com os momentos de tensão e alívio que as letras propõem.
Mascote Guaxi invadindo a capa de Anacrônico
Mais do que sobre ser um sucessor de um fenômeno, Anacrônico é um álbum sobre perceber que talvez o maior desafio não seja mudar o que já aconteceu ou se encaixar à força no presente, mas aceitar quem fomos e quem hoje somos, com todas as marcas que carregamos. É sobre entender que ser fiel à própria natureza, mesmo que isso pareça deslocado para o resto do mundo, é a única forma de estar verdadeiramente presente. E isso, por si só, já é uma enorme e necessária viagem para dentro de si.
Texto: Eduardo Veiga
