*por Luzia Nielly Sobreira Trigueiro
Do sertão nordestino ao cenário internacional, a defensora da Caatinga diante da crise climática
Em um estado caracterizado por sol forte, secas prolongadas e desafios, o Ceará tem se destacado como um local de resistência, inovação e combate. Entre as vozes que atualmente ressoam encontra-se a advogada e ativista Beatriz Azevedo que, aos 31 anos, foi a única brasileira a receber o prêmio “Land Hero” (heróis da terra, em tradução livre) – título da UNCCD, um reconhecimento da Organização das Nações Unidas (ONU), pelo trabalho em defensoria ambiental.

Créditos foto: arquivo pessoal/Instagram
Infância marcada pelo semiárido
Desde a infância, Beatriz foi influenciada pelas paisagens de sua terra natal. Encantava-se com os açudes repletos após as chuvas, mas também testemunhava os impactos severos das estiagens prolongadas. Professores que destacavam a importância da Caatinga e leituras sobre meio ambiente despertaram nela a percepção de que preservar a natureza era uma tarefa coletiva.
Ainda menina, incomodava-se com as desigualdades ao redor: famílias sem acesso à água potável, comunidades vulneráveis e jovens sem alternativas de futuro. Essa indignação moldou sua consciência social e reforçou sua determinação em lutar por justiça.
Caminho pelo Direito e engajamento ambiental
Ao escolher cursar Direito, Beatriz encontrou uma forma de unir a defesa da sociedade e a preservação ambiental. Durante a graduação, integrou o Grupo de Estudos em Direito Ambiental e Internacional (GEDAI), onde aprofundou conhecimentos sobre normas jurídicas ambientais e tratados internacionais de sustentabilidade.
Fez estágio no Ministério do Meio Ambiente e colaborou com organizações civis, entendendo, na prática, que o Direito poderia ser uma arma estratégica para pressionar autoridades, empresas e cidadãos a adotarem posturas mais responsáveis.
Beatriz não se restringiu às atividades acadêmicas. Fundou o Instituto Verdeluz, associação cearense voltada à conservação, educação ecológica e apoio a populações locais. Como primeira presidente da instituição, liderou ações de reflorestamento, oficinas de conscientização e projetos junto a jovens de diferentes comunidades.
No campo jurídico, assumiu a liderança da Comissão de Direito Ambiental da OAB-CE, onde teve a oportunidade de propor medidas e representar a entidade no Conselho Estadual de Meio Ambiente (Coema). Essa atuação dupla, transitando entre o movimento social e o espaço institucional, tornou-a uma ponte entre os jovens ativistas e os tomadores de decisão.
Em 2024, Beatriz foi a única brasileira agraciada com o título de Land Hero pela Convenção da ONU de Combate à Desertificação (UNCCD). A homenagem destacou seu empenho contra a desertificação e na defesa do bioma Caatinga, considerado exclusivo do Brasil e frequentemente esquecido em fóruns ambientais globais.
No ano seguinte, seu nome voltou a circular nos noticiários: foi selecionada entre os pré-candidatos a Jovem Campeã da COP 30, conferência climática das Nações Unidas marcada para 2025, em Belém do Pará.

Créditos foto: arquivo pessoal/Instagram
Essas conquistas fortaleceram sua presença no cenário internacional e abriram espaço para que a realidade do Nordeste brasileiro fosse levada aos principais palcos mundiais.
Empreendedorismo ambiental e novos horizontes
Além da militância e da advocacia, Beatriz criou a Aba Climate Solutions, empresa voltada a soluções sustentáveis em colaboração com administrações públicas, entidades privadas e organizações sociais. O objetivo é viabilizar projetos de adaptação às mudanças do clima, fomentar empregos verdes e captar financiamentos externos para iniciativas socioambientais.
Esse passo demonstra sua compreensão de que enfrentar a crise climática exige também inovação, diálogo com o mercado e investimentos em novas tecnologias.
Justiça ambiental como compromisso ético e espiritual
Para Beatriz, proteger o meio ambiente é uma questão ética, cidadã e também espiritual. Com base em sua formação cristã, relaciona o cuidado com a criação à responsabilidade de zelar pelas próximas gerações. Afirma que não há como separar a justiça ecológica da justiça social, pois ambas caminham juntas.
Esse olhar humanizado faz com que inspire especialmente os jovens cearenses, que passam a enxergar o ativismo como algo próximo e realizável em suas próprias comunidades.
Desafios e perspectivas
O caminho, contudo, apresenta obstáculos. O semiárido nordestino ainda enfrenta processos de desertificação, desmatamento e desigualdade estrutural. Muitas vezes, interesses econômicos de curto prazo se sobrepõem à preservação ambiental, dificultando avanços consistentes.
Mesmo assim, Beatriz segue confiante. Para ela, cada conquista — desde uma roda de conversa em uma escola até uma intervenção em conferências internacionais — representa um passo em direção à transformação. Sua trajetória demonstra que é possível partir de uma cidade pequena do Ceará e alcançar os espaços de decisão mais relevantes do planeta, sem abandonar as raízes locais.
Inspiração para as novas gerações
Hoje, Beatriz Azevedo é exemplo de que o ativismo pode se materializar de diversas formas: na advocacia, na militância de base, no empreendedorismo, na política e na educação. Sua história inspira adolescentes e jovens a se reconhecerem como agentes de mudança em seus territórios.
Mais que prêmios, cargos ou títulos, o que define sua caminhada é a convicção de que cuidar da natureza significa cuidar das pessoas. Sua missão é garantir que “a voz da Caatinga seja ouvida pelo mundo inteiro”.
*acadêmica do Curso de Licenciatura em Pedagogia do IFFar-SVS. Este artigo de opinião foi desenvolvido junto à disciplina “Processos de Inclusão”, ministrado pela professora Fernando de Camargo Machado, no 2º semestre de 2025.
