Qual a relação entre o El Niño e o Natal?

Curiosidade Meio Ambiente

Você provavelmente tem ouvido falar muito sobre o El Niño este ano, principalmente por uma preocupação com a sua intensidade. Mas você já se perguntou por que esse fenômeno recebeu um nome tão peculiar?

Apesar de atualmente associarmos o El Niño a diversas mudanças climáticas que assolam várias regiões do planeta, a origem de seu nome veio de uma observação muito mais pontual e localizada que, a propósito, se relaciona com o Natal.

Para entender a origem do nome desse fenômeno tão comentado, precisaremos retornar às águas da costa do Peru no século XIX. Pescadores da região perceberam que, em determinadas épocas do ano, as águas próximas à costa se tornavam mais quentes. O aquecimento das águas afetava as condições oceânicas e a disponibilidade de peixes, algo que seria percebido por aqueles que dependiam justamente da pesca.

Com o tempo, esses pescadores perceberam que esse aquecimento ocorria próximo ao final de dezembro, período que coincide com o Natal. Por isso, associaram o fenômeno ao Menino Jesus e atribuíram à corrente de águas quentes a expressão espanhola “El Niño” (O Menino). A atribuição dessa expressão como nome para o fenômeno foi explicada durante uma sessão no Congresso da Sociedade Geográfica de Lima pelo Capitão Camilo Carrillo e documentada no Boletim da Sociedade Geográfica de Lima, em 1892. Esse registro é frequentemente apontado como um dos primeiros registros científicos do nome “El Niño” para descrever o aquecimento das águas do Pacífico.

Com isso, podemos considerar a observação dos pescadores como um precedente à compreensão científica que temos sobre o fenômeno El Niño atualmente. Os pescadores identificaram, por meio de sua experiência com o mar e com a pesca, uma alteração que, posteriormente seria estudada pela ciência e compreendida como um fenômeno de grande escala amplamente monitorado. O que houve, então, foi uma transição do uso popular para um uso científico do nome, e algo parecido aconteceu com o estudo acerca do El Niño. Acreditava-se inicialmente que o El Niño era um evento marinho local na costa do Peru e do Equador e, para a época, o fenômeno era simplesmente uma contracorrente de águas quentes que surgia na região por volta de dezembro e que ocasionava o afastamento dos peixes. Não se imaginava que, na verdade, o evento se conectasse com o resto do mundo como se compreende hoje.

Crédito/Imagem: Gran Cursos Online

A revolução sobre essa visão ocorreu quando os cientistas perceberam que o aquecimento do oceano andava de mãos dadas com outras alterações. Na década de 1920, Sir Gilbert Walker descobriu que, quando a pressão atmosférica subia no lado leste do Pacífico, ela caía no lado oeste (e vice-versa). Ele chamou isso de Oscilação Sul, mas isso não passou de uma correlação. Quase 50 anos depois, Jacob Bjerknes mostrou que o oceano e a atmosfera se relacionavam da seguinte maneira: os ventos alísios que empurram a água quente para o oeste do Pacífico são causados pelo contraste de temperatura entre leste e oeste; por isso, se a água no leste aquece, os ventos enfraquecem, menos água fria sobe e isso aumenta ainda mais a temperatura das águas. Com isso, pôde ser estabelecida uma conexão entre o aquecimento das águas do Pacífico e a Oscilação Sul, unificando-se no sistema ENSO (El Niño Southerm Oscillation). O ENSO, no entanto, não possui apenas a fase de aquecimento. Existe uma fase complementar, caracterizada por um resfriamento anormal das águas superficiais do Pacífico equatorial, e aqui, invés de decorrer do enfraquecimento, ela provém do fortalecimento dos ventos alísios. Esse contraponto ao El Niño foi batizado, então, de maneira similar a seu irmão, de La Niña.

Reconhecemos hoje, quando falamos do El Niño, que estamos falando de um fenômeno muito mais amplo e impactante do que apenas o aquecimento das águas do Pacífico observado pelos pescadores peruanos no século XIX.

Pesquisa e texto: Otávio Erd

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